quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Paris, Je T'aime Aussi

*Paris, eu também te amo.
Posso dizer que a conheço
melhor do que minha própria cidade natal, sem exageros. E a noticia de que um coletivo de realizadores de todo o mundo faria um filme sobre Paris não me surpreendeu muito, já que a cidade, além de respirar cinema, apresenta a cada esquina roteiros complexos dignos de Oscar. Além do famoso charme parisiense, a maior característica da capital francesa é mesmo a multiplicidade.
Essa diversidade é traduzida nos 18 curtas de “Paris, Te Amo”. A mesma cidade que serve de palco para encontros entre pais e filhos também é aquela que promove encontros inusitados entre vampiros e turistas. O filme, de 2006, reuniu produtoras de quatro países (França/Alemanha/Suíça/Lichtenstein) e 21 diretores, entre indianos, americanos, brasileiros e, quem diria, franceses.
Alguns deles, como Gus Van Sant e Alexander Payne, utilizaram suas preferências e as encaixaram na cidade. Van Sant sempre gostou de falar de jovens bonitos de cabelos desarrumados, e não faz feio ao colocar Gaspard Ulliel
em um monólogo de 5 minutos, divagando sobre a possibilidade de existirem almas gêmeas. Já Payne usa seu talento com personagens e narra uma bonita história de amor entre uma cidadã americana comum e a cidade de Paris. Em “14éme Arrondissement”, a personagem narra a sua visita à cidade em uma redação na aula de francês, e com um relato quase simplório consegue comover a todos e provocar uma curiosa identificação no público, mesmo naqueles que nunca visitaram a cidade. Como ela mesma diz, ao final do curta : “Tive uma sensação difícil de descrever. Foi como se eu me lembrasse de algo que nunca conheci, ou que eu sempre esperei. Uma mistura de alegria e tristeza. Eu me senti viva”.
Este curta, o último de todos os segmentos, resume o assunto principal dos outros 17 que vieram anteriormente: o amor. O amor pode ser algo repentino, doloroso, surpreendente ou fantasioso, mas não escolhe cor da pele, idade ou religião. Durante os 116 minutos de filme, vemos histórias de amor em meio à paisagem de Paris e elas são, acima de tudo, declarações de amor dos próprios diretores para a cidade.
Pelo fato da grande maioria dos curtas ser falada em inglês, e dirigida por diretores estrangeiros, fica evidente que “Paris, Te Amo” é um retrato da cidade a partir da visão externa. Mas isso não é um defeito do filme, e sim mais uma característica relacionada à cidade: Paris é cosmopolita. Além de receber 16 milhões de turistas por ano, a cidade é moradia para imigrantes árabes, africanos e asiáticos. Todos eles citados em “Paris, Te Amo”.
A visão do estrangeiro é uma das premissas do filme. A mãe latina que viaja horas da periferia ao bairro mais chique da cidade para trabalhar como babá (Loin du 16éme, dirigido pelos brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas) fica atenta apenas ao tempo fora da janela, esperando a hora de voltar para casa. O imigrante africano, em seus últimos momentos de vida, busca a volta para casa e o conforto na companhia de uma jovem negra. A jovem muçulmana, mesmo parisiense, procura afirmar suas origens e crenças em meio à banalização da mulher no mundo contemporâneo. Até mesmo Place des Fêtes, que mostra o sofrimento de uma mãe francesa ao aceitar a morte do filho, retrata o incômodo da personagem na nova situação, se sentindo estrangeira e incompreendida em sua própria casa.
Até mesmo “Porte de Choisy”, por mais nonsense que seja, consegue retratar tal visão, por um ângulo pouco usual. Porte d'Ivry e Porte de Choisy são os “apelidos” do 13éme arrondissement. Este, povoado a partir da periferia (as “portas”), foi completamente tomado pelos imigrantes asiáticos. Chineses, japoneses, tailandeses e coreanos dividem o bairro fraternalmente. Mas não é a mesma relação que eles tem com os “estrangeiros” (na verdade, os próprios parisienses). Ali, o francês é quem invade o território. O curta é dirigido por Christopher Doyle
, que mostra o bairro asiático com um estilo pessoal, mas verdadeiro.
O próprio filme chega a uma conclusão quando todos os personagens, espalhados pelos 20 “arrondissements” da cidade, dizem “je t'aime” em coro. Nesse ponto, “Paris, Te Amo” mostra para que veio: falar de amor em diversas línguas e pontos de vista. Durante o filme, takes da cidade em diversos momentos do dia dão a impressão de que todas aquelas histórias se passam ao mesmo tempo, em vários cantos de Paris. E todos os segmentos de cinco minutos se unem ao final formando uma única história, bastante heterogênea: a história de Paris.

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